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Quais as consequências para o seu motor se o percentual de álcool na gasolina aumentasse para 40%?

o que acontece com o motor 40% de álcool na gasolina
EDIT: o Ministério das Minas e Energia e UNICA voltaram atrás em 14/03/2018, mas a análise técnica do artigo se mantém intacta para as consequências de usar gasolina com mais etanol do que os 22% regulamentares. Esta é a adulteração mais comum e ocorre em muitos postos há décadas. Caso este aumento de etanol na gasolina volte a aparecer, a análise do artigo permanece válida.

A gasolina brasileira tem 22% de álcool como padrão oficial. Todos os testes em laboratório e de campo são realizados utilizando o combustível com esta mistura, conhecida como “gasolina B22” ou “gasolina E22” pelos técnicos de desenvolvimento. Eventualmente, ele pode ser elevado ou reduzido, a fim de regular os preços do combustível.

Atualmente, o percentual de etanol se encontra em 27,5% da mistura, com vistas a evitar aumentos ainda maiores do preço do derivado de petróleo. Porém, o governo quer elevá-lo para 40% até 2030. Uma quantidade de álcool tão grande pode prejudicar os motores? Todos? Ou só alguns?

A partir de uma constatação aparentemente óbvia – a de que todos serão afetados – este artigo explora uma análise mais profunda, pois alguns motores sentirão pouca diferença, ao passo que outros estarão expostos a danos catastróficos, sem os cuidados necessários.

A lista abaixo trata da influência de todos os motores a gasolina “B40”, com 40% de álcool na mistura, na ordem dos menos para os mais afetados pela mudança.

MOTORES BICOMBUSTÍVEIS, OU “FLEX FUEL”

motores flex fuel

De longe, os conjuntos motrizes calibrados para usar os dois combustíveis são os que menos sofrem com o aumento da quantidade de álcool na gasolina, posto que sua concepção permite que o motorista o abasteça com qualquer proporção de mistura sem qualquer limitação.

O único cuidado a ser observado consiste em rodar pelo menos dez quilômetros ao trocar o combustível utilizado. Ademais, a medida pretendida pelo governo não trará nenhum risco à integridade mecânica do veículo. A única consequência desagradável se tratará da redução da autonomia causada pela proporção de etanol de 40%, vendido a preço de gasolina com 22% de álcool.

MOTORES A GASOLINA COM CALIBRAÇÃO DE INJEÇÃO ELETRÔNICA DESENVOLVIDA NO BRASIL

MOTOR AP a gasolina
Motor Volkswagen AP a gasolina, reconhecido pela sua resistência a combustíveis de má qualidade

Mesmo com o domínio dos propulsores bicombustíveis no mercado brasileiro a partir de 2003, a engenharia de motores brasileira sempre produziu e ainda produz bons motores movidos apenas a gasolina.

A qualidade dos combustíveis brasileiros é, na melhor avaliação, sofrível. Um agravante reside na grande frequência de adulterações de gasolina, na maioria das vezes com mistura de etanol acima dos 22% regulamentares. O uso de solventes exige um cuidado ainda maior no desenvolvimento, pois os danos provocados por eles pode arruinar qualquer motor, inclusive os flex fuel.

Este cenário caótico, em tese, obriga os departamentos de desenvolvimento a projetar unidades concebidas para funcionar somente com gasolina, como “total flex” de fábrica. Com vistas a obter durabilidade satisfatória, um modelo nacional movido pelo derivado do petróleo pode ser abastecido com etanol e funcionar com razoável eficiência.

Muitos fabricantes fazem o projeto apenas para gasolina, como seria natural, e não “bicombustível” para suportar combustível de má qualidade, como outro grupo de marcas. Não há como saber como cada montadora projeta e testa seus motores. 

Há alguns anos, alguns “espertinhos” passaram a abastecer seus carros a gasolina com etanol após esta “descoberta”, acreditando fazer economia com esta prática. Ouve-se relatos de motoristas que rodaram mais de 30 mil quilômetros sem relatar problemas. De fato, o motor funciona com perda de rendimento aceitável, a despeito do consumo elevado.

Entretanto, o motor projetado apenas para rodar com gasolina suporta o uso de 100% de etanol em situações pontuais, com vistas a resistir ao combustível adulterado por um  curto período. Como toda má prática, o abastecimento combustível inadequado provoca danos ao motor, variando em gravidade conforme o mau uso.

O que acontece se o motorista usar álcool em excesso em motores a gasolina?

OS PROBLEMAS MAIS COMUNS CAUSADOS PELO ÁLCOOL EM MOTORES A GASOLINA

problemas do excesso de álcool no motor gasolina

A lista abaixo relata brevemente os principais problemas do uso de gasolina com 40% – ou mais – de álcool misturado. Esta lista é comum a todos os modelos a gasolina.

PROBLEMAS NA PARTIDA A FRIO

Ao calibrar o sistema de injeção eletrônica, um dos trabalhos mais sensíveis pra os engenheiros consiste em encontrar o melhor ajuste na partida em dias frios. No caso dos motores bicombustíveis, o sistema exige maior capricho dos técnicos, com o benefício de não sofrer as consequências do aumento da proporção de etanol na gasolina.

Infelizmente, os motores movidos apenas a “suco de dinossauro” não se adaptariam nada bem à mudança. Em qualquer caso, o efeito notado mais rapidamente com o aumento da quantidade de etanol é a dificuldade na partida a frio nos motores apenas a gasolina.

Como o poder calorífico do etanol é inferior ao da gasolina, é necessária uma quantidade de combustível maior para o motor entrar em funcionamento, a qual o sistema de injeção calibrado para gasolina não supre. Este artigo explica as características de ambos os carburantes com maiores detalhes.

Enquanto os motores “flex”  possuem tanquinho de partida a frio ou resistências para aquecer o combustível, não há nenhum sistema auxiliar para os modelos a gasolina funcionarem pela manhã. Se a temperatura estiver abaixo dos 15°C e a quantidade de etanol na mistura estiver acima de 40%, provavelmente o motor não entrará em funcionamento e não há outra solução senão usar gasolina com menos álcool.

QUEIMA DA BOMBA DE COMBUSTÍVEL

Bombas de combustível dependem da viscosidade e poder lubrificante do combustível para funcionar corretamente. Naturalmente, um componente projetado para trabalhar com gasolina, com propriedades diferentes do etanol, certamente terá problemas ao operar por muito tempo com fluido fora das especificações de fábrica.

O aumento do percentual de etanol na gasolina de 27,5% para 40% certamente causará danos às bombas de combustível de muitos modelos concebidos para funcionar somente com gasolina. O preço do componente varia entre R$ 300 para modelos populares a mais de R$ 10 mil em importados de luxo.

BAIXA DURABILIDADE DAS VELAS

Da mesma forma que os demais componentes do motor a gasolina, as velas são dimensionadas para trabalhar com este combustível. O aumento da quantidade de álcool na mistura causa seu desgaste prematuro, causado pela combustão prejudicada pelo excesso do combustível vegetal.

Certamente, um aumento da quantidade de etanol na gasolina para 40% causaria baixa durabilidade das velas, selecionadas e testadas para usar mistura com 78% de gasolina.

ENTUPIMENTO DE BICOS INJETORES E FILTROS

Um efeito negativo do excesso de álcool na mistura de gasolina é a detonação – popularmente conhecida como “batida de pino” – causada pela combustão incompleta. O subproduto do funcionamento deficiente consiste na carbonização, a qual libera impurezas que contaminam todo o sistema.

Os bicos injetores serão os primeiros a apresentar problemas, a partir do momento no qual os filtros ficam saturados. No caso de formação de partículas mais espessas, o entupimento dos componentes responsáveis pela alimentação de combustível não conseguirão mais fornecer o fluxo necessário, e uma acentuada queda de desempenho ocorre.

Um aumento na quantidade de etanol na gasolina aumenta significativamente a probabilidade de entupimento dos bicos injetores de motores movidos exclusivamente a gasolina.

PROBLEMAS DE LUBRIFICAÇÃO

Assim como todos os demais componentes e consumíveis do motor, o óleo lubrificante é selecionado conforme o combustível utilizado.

Assim, um forte aumento da quantidade de etanol na gasolina, como de 22% para 40%, traria problemas de lubrificação para os motores movidos somente com o derivado do petróleo, dado que o etanol perde suas propriedades lubrificantes ao ser exposto a um combustível diferente do qual foi concebido.

Mais um item importante que precisaria ser alterado com esta canetada dos governantes ao mudar a composição da gasolina brasileira. Em casos de ausência de manutenção por longos períodos, a formação de borra ganha boa chance de ocorrer, mesmo com o uso de combustível dentro da nova especificação.

TRAVAMENTO DO TURBOCOMPRESSOR

Uma consequência da perda das propriedades lubrificantes do óleo lubrificante em motores sobrealimentados, movidos somente a gasolina, pode ser a quebra da turbina.  Ela utiliza o mesmo fluido do motor para sua lubrificação.

Seu rotor giram acima das 100 mil rotações por minuto, apresentando maior sensibilidade a alterações nas características físico-químicas do óleo em comparação ao restante da unidade motriz.

Motores turbo requisitam maiores cuidados em sua manutenção, especialmente no que concerne ao óleo lubrificante e filtros. O aumento da quantidade de etanol na gasolina exige que o dono redobre a atenção com a manutenção, pois os valores para reparar uma turbina podem custar milhares de reais.

Após a exposição do longo rol problemas que podem vir a aparecer nos motores a gasolina com a elevação do percentual de álcool na gasolina de 22-27,5% para 40%, os dois itens abaixo trazem os maiores prejudicados com esta possível mudança.

MOTORES A GASOLINA CARBURADOS

motores carburados gasolina 40% álcool

Modelos mais antigos, fabricados há trinta anos, não são equipados com sistemas de injeção eletrônica. Da mesma maneira que os automóveis carburados e movidos exclusivamente a etanol sofreram com a escassez do produto no final dos anos 1980, seus pares alimentados com o derivado do petróleo sofreriam bastante com uma mistura de 40% de álcool.

Um problema recorrente à época consistia na corrosão causada pela baixo poder lubrificante do derivado da cana, o qual pode prejudicar os modelos mais antigos em sua durabilidade por causa da baixa resistência de seus materiais ao ataque químico do etanol.

No que concerne à alimentação, os modelos foram calibrados para funcionar com gasolina B22, usada como padrão desde os anos 70 pelo governo brasileiro. Um sistema de injeção eletrônica de um modelo a gasolina tem maior capacidade de se adaptar ao combustível inadequado, por meio do ajuste do software de gerenciamento.

Por sua vez, um sistema carburado opera de forma puramente mecânica e o projeto do componente depende totalmente do combustível empregado para o funcionamento do motor. Isso posto, modelos carburados apresentam queda de performance e aumento de consumo mais acentuados em relação a modelos injetados.

Um agravante da mudança proposta pelo governo para os modelos equipados com propulsores carburados reside na ausência do interesse dos fabricantes em desenvolver componentes e produtos para modelos fora de linha há décadas, tendo seu rendimento comprometido. Outro ponto reside na perda de originalidade de automóveis clássicos, dado que as modificações para o uso de gasolina com 40% de álcool podem reduzir seu valor de mercado.

MOTORES A GASOLINA SEM CALIBRAÇÃO DE INJEÇÃO ELETRÔNICA ESPECÍFICA PARA O BRASIL

porque a maioria das ferrari é vermelha
Uma mistura de 40% de etanol na gasolina faria pelo menos 10 cv desta Ferrari 458 morrerem

Apenas no Brasil se usa a mistura de etanol na gasolina em larga escala. Modelos de baixíssimas vendas por aqui não justificam o desembolso de milhões de reais em testes de campo para a “tropicalização” do sistema de injeção. Assim, são calibrados para rodar com gasolina pura e suportam os 22% de álcool na mistura com alguma perda de rendimento.

Infelizmente, os 40% de etanol seriam muito difíceis de suportar para um propulsor concebido para funcionar com gasolina pura e de alta octanagem. Os efeitos dessa canetada oficial serão catastróficos para estes motores: grande perda de desempenho, aumento de consumo e durabilidade comprometida, caso não seja feita a calibração do motor específica a mistura com apenas 60% de gasolina para os modelos novos.

Ao final, as maiores vítimas desta canetada estatal serão os importados mais antigos, com poucas unidades rodando, sem suporte do fabricante nem peças de reposição. A realização de um setup específico para rodar com este “rabo-de-galo” ficarão a cargo de reparadores, apenas para mantê-los “vivos” e funcionando.

Proprietários de modelos esportivos e superesportivos, como Ferrari, Porsche e Lamborghini, não terão à disposição a gasolina ideal para extrair a máxima performance de seus bólidos. Assim como os proprietários de modelos mais “humildes” e/ou antigos verão suas máquinas padecer dos problemas causados pelo álcool, sem possibilidade de fazê-los rodar com o desempenho proporcionado pela gasolina B22.

“CIRROSE CARBURÁTICA”

Alegando a proteção ao meio ambiente e a redução do preço do combustível, o governo propõe um pesado aumento da mistura de etanol na gasolina de já pesados 22-27,5% para inaceitáveis 40% pensando apenas nos modelos mais modernos, bicombustíveis e adaptados para funcionar com ambos os combustíveis.

Tal medida traria enorme prejuízo a pelo menos 30% de nossa frota, composta por modelos mais antigos movidos somente a gasolina, clássicos, carburados, importados e de alta performance, os quais têm suas características de desempenho e rendimento comprometidas pela inexistência nos postos do combustível para o qual foram projetados para funcionar.

Se o álcool causa cirrose hepática nos seres humanos, 40% de etanol misturado na gasolina causaria “cirrose carburática” em muitos motores das garagens brasileiras.

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