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Os motores a combustão vão desaparecer?

A mídia faz forte propaganda para modelos híbridos e elétricos, alegando que são os mais ecologicamente corretos, devido a seu baixo consumo e emissão próxima de zero.  Por sua vez, os motores a combustão são tratados como “monstros poluidores” e sofrem combate pelos ativistas ambientais.

dieselgate – escândalo de fraude nas emissões de modelos a diesel, que estourou nos EUA em 2015 – e a promoção feita por artistas de Hollywood para modelos como Toyota Prius, Tesla Model S e Nissan Leaf têm reforçado esta imagem.

A maior parte dos apaixonados por carro rejeitam estes modelos, devido ao desempenho insosso e condução nada empolgante, similar aos carrinhos elétricos utilizados para carregar caixões nos cemitérios.

Lamúrias sobre a suposta morte do motor a combustão povoam os comentários de sites entusiastas. Mas será que o motorista precisa mesmo abrir mão do prazer ao dirigir para preservar o meio ambiente?

A resposta contida neste artigo contraria o senso comum e trará alento aos gearheads, que amam uma condução prazerosa.

IMPACTO AMBIENTAL TOTAL

A maioria das pessoas desconhece o conceito de impacto ambiental total, o qual considera todo ciclo de vida de um veículo. Da extração das matérias primas naturais ao descarte dos materiais restantes nos desmanches, todo o impacto ambiental deve ser levantado.

As análises mais superficiais levam em conta apenas o consumo de combustível e as emissões de poluentes geradas pela queima dos combustíveis nos motores de combustão interna, induzindo os consumidores a acreditar que os modelos híbridos e elétricos são mais ecológicos.

Compreender o impacto ambiental de fabricação, geração de energia elétrica e descarte  de baterias de lítio permite avaliar com mais profundidade se os modelos a combustão são mesmo os “vilões” do meio ambiente, e os movidos a bateria os “mocinhos”.

Os próximos tópicos comparam os dois combustíveis de forma sucinta.

BATERIAS DE LÍTIO

Fabricar baterias de lítio geram grande impacto ambiental. As atividades de mineração geram desmatamento, erosão dos solos e despejam produtos tóxicos no meio ambiente.

Isso posto, grande parte do benefício obtido na redução da emissão de poluentes se perde antes do veículo ganhar as ruas, no ato da extração das matérias-primas de suas baterias.

Da mesma forma que sua fabricação exige mais recursos naturais, o descarte das baterias de lítio também podem prejudicar os ecossistemas, caso os procedimentos de tratamento de resíduos não sejam feitos, ou executadas de modo incorreto.

Neste tópico, o motor a combustão leva grande vantagem ecológica devido à dispensa do uso de baterias, deixando pegada ecológica menor em sua fabricação e desmanche. O próximo passo consiste na avaliação do uso dos combustíveis e energia elétrica.

CARROS ELÉTRICOS SÃO MOVIDOS A CARVÃO

carros elétricos são movidos a carvão

A economia de combustível dos modelos híbridos e elétricos é incontestavelmente superior. Assim como a menor emissão de poluentes pelo seu escapamento. A próxima pergunta a se fazer é sobre a origem da energia elétrica.

No caso de modelos híbridos puros, ela advém do combustível fóssil – geralmente gasolina. A redução nas emissões obtida com o auxílio do motor elétrico não compensa o dano causado pela produção e descarte das baterias de lítio, “empatando” o impacto ambiental em relação à queima de gasolina.

A situação é ainda menos vantajosa do ponto de vista financeiro. O Ford Fusion exemplifica bem este quesito por oferecer versões a combustão (Titanium AWD, R$ 139.900) e híbrida (Hybrid, R$ 159.900)* O motorista médio roda 15 mil quilômetros por ano.

No caso do sedã grande da Ford, o retorno do valor extra ocorre entre 1 a 3 anos, a depender dos incentivos tributários do estado e/ou município no qual o veículo está registrado e do tipo de utilização do modelo, com retorno mais rápido em caso de maior uso no ciclo urbano.

No caso dos modelos híbridos plug-in ou elétricos puros cujas baterias são carregadas na tomada, como os smartphones – a economia financeira se mostra superior aos híbridos puros. Eles costumam fazer médias de 40 a 70 km/le** (quilômetros por litro de combustível equivalente), variando conforme o preço do combustível a tarifação da fornecedora de energia elétrica local.

Clique aqui para descobrir como calcular o consumo equivalente de combustível para comparar um carro elétrico com outro a combustão

De qualquer maneira, a energia elétrica proveniente dos carregadores deve ser gerada por uma usina, a qual é abastecida por alguma fonte que afeta o meio ambiente. No caso brasileiro, predomina a matriz hidrelétrica. Apesar de gerar poucas emissões de gás carbônico, sua construção causa grande impacto no ecossistema local, desalojando a fauna e removendo a população local.

Em caso de aumento de demanda e/ou problemas na geração hidrelétrica, as companhias possuem usinas termoelétricas a gás, óleo e carvão, para sustentar o abastecimento. Ou seja, um rápido aumento de demanda faria nossos carros elétricos serem movidos a carvão.

A substituição de 30% da frota nacional por modelos carregados na tomada demandaria pelo menos três novas usinas do porte de Itaipu, cuja construção leva de cinco a dez anos para ser concluída, obrigando as empresas a manter as termoelétricas operando de forma contínua para abastecer as baterias dos veículos.

No resto do mundo, a matriz energética predominante é a térmica, a qual gera grande quantidade de poluição. Um aumento rápido nas vendas de modelos híbridos e elétricos pode causar degradação ambiental nas áreas produtoras de energia elétrica pela queima de combustíveis fósseis.

A insuficiência da matriz hidrelétrica por aqui nos faria acompanhar os demais países, e nossos carros elétricos também seriam movidos a carvão por décadas.

Clique aqui e assista um vídeo que compara o impacto ambiental global entre modelos elétricos e a combustão interna

MOTORES A ETANOL NEUTRALIZAM EMISSÕES

Um mito sobre carros elétricos reside na impressão de serem mais limpos, somente por não emitirem gases nos locais pelos quais circulam. Alguns defendem os benefícios de preservar o ar dos centros urbanos, nos quais a população se concentra, e “transferir” a poluição para áreas pouco habitadas, preservando a saúde das pessoas.

Será que vale mesmo a pena? Claro que não. O planeta é um só, e a poluição não pode ser “transferida”. Assim, a solução efetiva consiste na produção de veículos que minimizam os impactos totais de seu ciclo de vida, da extração de suas matérias-primas ao descarte dos resíduos.

Este parágrafo traz a boa notícia:

OS VEÍCULOS MAIS LIMPOS DO MUNDO SÃO FEITOS NO BRASIL.

SÃO OS CARROS MOVIDOS A ETANOL.

Mesmo emitindo poluentes no funcionamento do motor, a plantação de cana-de-açúcar neutraliza de 40% a 80% dos gases que saem pelos escapamentos. Porém, a redução do impacto ambiental pode ser prejudicada no caso de haver queimadas para fazer a colheita.

Enquanto os carros elétricos “limpam” o ar que está “perto” dos motoristas, polui o que está “longe”, nas áreas nos quais as usinas termoelétricas operam. Também geram enorme impacto ambiental na mineração de lítio, processos de fabricação e descarte das baterias. Os modelos a combustão levam grande vantagem ecológica em dispensar estes componentes, a qual deveria ser compensada pela economia de combustível fóssil.

O etanol é combustível vegetal, uma fonte renovável. A fotossíntese necessária para a produção da cana-de-açúcar neutraliza grande parte das emissões de gás carbônico geradas pelos escapamentos, gerando a poluição “perto” do motorista e limpando o ar que está “longe”, nas fazendas e usinas que o produzem.

A dispensa das baterias de lítio, geradoras de resíduos tóxicos, e sem usar combustíveis fósseis, o etanol se afirmou como a opção mais “verde” disponível no mercado. E é tecnologia made in Brazil.

Mas basta o veículo ser equipado com um motor a etanol para se tornar ecologicamente correto? Motores a gasolina, gás natural ou mesmo diesel podem ser mais amigáveis ao meio ambiente que os híbridos e elétricos?

EFICIÊNCIA ENERGÉTICA É OBRIGATÓRIA

As respostas às perguntas acima não são intuitivas e instigam o consumidor ambientalmente consciente a se aprofundar no tema. Os impactos extras gerados pelos modelos a bateria já foram descritos nos parágrafos acima e nos artigos dos links.

As chaves para compreender se os modelos a combustão podem ser mais “verdes” que os elétricos reside na eficiência do sistema de redução de emissões e na eficiência energética. As respostas surgem a partir destes princípios.

A resposta à primeira pergunta é não. Não basta usar combustível renovável, o ponto central está na eficiência energética. De modo complementar, um bom sistema de catalisadores, com vistas a reduzir a emissão de gases tóxicos, também possui papel essencial.

Modelos a etanol com alto consumo e pouca tecnologia de controle de emissões podem ser mais nocivos ao meio ambiente até mesmo que similares movidos a diesel. Para exemplificar: uma picape bicombustível que roda 3 km/l de etanol pode ser mais poluente em relação ao mesmo modelo movido a diesel, o qual faz média de 10 km/l e possui um bom sistema de catalisadores.

A resposta da segunda pergunta é sim. Modelos a gasolina e até mesmo a diesel podem ser mais ecológicos em relação aos elétricos. Desde que entreguem ótima eficiência energética e emitam abaixo de 100 gCO2/km (gramas de gás carbônico por quilômetro – unidade de medida de emissão de poluentes).

Na maioria dos casos, automóveis equipados com motores a gasolina que percorrem mais de 17 km/l, e outros que rodam mais de 22 quilômetros com um litro de óleo diesel podem ser mais ecológicos que seus concorrentes a bateria que entregam médias acima de 50 km/le (quilômetros por litro de gasolina equivalente – unidade de comparação entre o consumo de combustível e eletricidade).

Em resumo: motores a combustão podem ser mais ambientalmente corretos, desde que obtenham elevada eficiência energética e emitam abaixo de 100 g/km, a fim de compensar as emissões de gases na queima do combustível e utilizar a vantagem de não demandar grandes volumes de lítio.

Modelos a etanol se saem melhor, devido à neutralização de parte dos poluentes na fotossíntese, necessária para a produção do combustível vegetal.

QUAL SERIA O MODELO MAIS ECOLOGICAMENTE CORRETO?

Um protótipo de um modelo bastante famoso sintetiza os principais pontos deste artigo: não utilizar energia de usinas termoelétricas, ser movido a combustível vegetal e emitir baixíssima quantidade de poluentes. O modelo abaixo se encontraria entre as opções mais “verdes”, se viesse ao mercado.

Toyota Prius Flex Híbrido

Um Toyota Prius Flex Híbrido

Mas o Prius utiliza baterias, não é mesmo? Sim. Vale ressaltar que o resultado final deve englobar o impacto total. Nunca chegou ao mercado um modelo híbrido com motor a combustão a etanol, totalmente livre de energia fóssil. Mesmo com o impacto gerado na produção das baterias, a neutralização das emissões dos gases de escape o colocaria como excelente opção, ao contrário de seu similar que “bebe” gasolina.

Nesta disputa pela preservação do meio ambiente, os fabricantes europeus investem em motores de alta eficiência energética e baixas emissões, em especial a Volkswagen e a Peugeot no velho continente, as quais oferecem modelos a gasolina (pura e de boa qualidade) com médias superiores a 25 km/l.

O BRASILEIRO E O MEIO AMBIENTE

As questões ambientais não ganham a mesma relevância no Brasil, em comparação com os mercados maduros. Por lá, boa parte dos motoristas aceitam desembolsar um pouco mais para preservar os ecossistemas.

Por aqui, o bolso será o principal aliado do meio ambiente. O etanol se encontra em estágio bastante avançado de desenvolvimento e os modelos híbridos e elétricos economizam muito dinheiro no posto de gasolina. Estes incentivos se mostram suficientes para fazer o brasileiro aderir à onda ecológica – mesmo que por motivos financeiros.

A indústria sucroalcooleira se encontra consolidada e tem plena aceitação por aqui. Os modelos híbridos e elétricos possuem um fã-clube crescente, especialmente entre o grupo mais preocupado com o meio ambiente, o qual acredita (muitas vezes de forma equivocada) serem os automóveis mais “verdes”.

De qualquer maneira, o boom dos híbridos depende da queda dos preços de compra. No momento em que se tornarem acessíveis à maior parte da população, a economia nas bombas os fará cair no gosto do brasileiro e se tornar sonho de consumo no país da gasolina cara.

OS MOTORES A COMBUSTÃO VÃO DESAPARECER?

Desde o início do texto, o artigo gira em torno da pergunta do título.

Não, os motores a combustão não irão acabar. Eles se tornam cada vez mais competitivos nas questões ambientais com o ganho de eficiência e desenvolvimento dos sistemas de neutralização de poluentes. Logo, concorrerão em pé de igualdade com os tão promovidos elétricos.

A simplicidade tecnológica, menor custo de produção e desenvolvimento, prazer ao dirigir e público cativo e fiel ao ronco dos motores trará vida longa aos motores a combustão. Em mercados emergentes, serão comercializados por muitas décadas.

Os gearheads podem ficar em paz, pois o objeto de paixão sempre existirá entre os modelos esportivos e de pegada entusiasta. Os fabricantes respeitam a força deste público e não faltará oferta de motores a combustão. A engenharia juntará o prazer de dirigir com o respeito ao meio ambiente, e o ronco dos motores ecoará por muitas décadas.

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*Cotações obtidas pelo autor deste artigo em concessionárias Ford em setembro de 2018. Os preços de tabela são R$ 159.900 para o Titanium e R$ 164.900 para o Hybrid, o que daria vantagem financeira ao modelo híbrido. Vale lembrar que o preço de tabela raramente reflete os preços realmente praticados no mercado.
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