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Preço dos carros no Brasil: um motivo ignorado pela maioria

preço dos carros no brasil

Muito se fala sobre os preços absurdos dos automóveis no Brasil. Os principais motivos já foram exaustivamente citados e esmiuçados em infindáveis artigos: carga tributária imoral, margem de lucro gorda das montadoras, alto custo de mão-de-obra, sindicatos, infraestrutura deficiente, preço dos insumos, taxa de juros escorchantes para as empresas investirem em produção, entre centenas deles. Este post não tratará deles, pois o objetivo não é chover no molhado. Desta vez, o foco reside em uma questão comportamental do consumidor brasileiro, que é:

O HÁBITO DE COMPRAR VEÍCULOS FINANCIADOS.

EM PROPORÇÃO ACIMA DA MÉDIA MUNDIAL.

Mas o que isso tem a ver com o fato de os carros serem tão caros no Brasil? Tudo. Mas é preciso entender como funciona a cabeça dos executivos das montadoras, um pouco de matemática financeira e a lógica dos cálculos de lucratividade aplicados no mercado. O impacto no preço final é bastante significativo (e perverso). As condições econômicas impostas pelos governos nos últimos trinta anos agravam bastante o quadro. Nesta matéria, falar-se-á mais de economia do que de automóveis. Por isso, dividirei em cinco partes para esclarecer melhor.

1 – O valor do dinheiro no tempo: aqueles que estudaram matemática financeira sabem que o valor do dinheiro varia no tempo, isto é, um real hoje compra menos em relação há um, dois, cinco ou dez anos atrás e vale mais hoje do que em alguns anos à frente. Como 91% das vendas dependem de financiamentos, feitos pelos bancos das montadoras em grande parte das vezes, a margem de lucro precisa ser ajustada a valores futuros e ao custo de oportunidade*, com forte impacto da taxa SELIC**.

O resultado consiste no encarecimento dos automóveis, especialmente com os juros a 14,25% ao ano. Como as fábricas ajustam o preço dos veículos ao retorno mínimo exigido pelos departamentos financeiros, e o consumidor paga a conta.

vpl

2 – A alta taxa de retorno dos bancos: somada às taxas de retorno sobre investimento da produção, há a taxa de retorno dos financiamentos, baseada em outros critérios. Nota de crédito do consumidor, inadimplência, taxas de retorno, comissões, fluxo de caixa, entre outros. Obviamente, ocorre um impacto em cascata no preço do produto, pago novamente pelo comprador.

3 – A cultura do financiamento que impera no Brasil: todos sabem que o brasileiro adora um financiamento, e raros são os que não pagam alguma prestação. Apesar da incidência de taxas de retorno sobre investimento e financiamento em cascata, 91% dos motoristas ainda preferem comprar seus veículos a prazo, inflando ainda mais a conta. E olha que nem mencionei os 38% a 58% de impostos.

Sobre os itens 2 e 3, vale lembrar que as montadoras fazem seus cálculos com uma margem muito alta, sendo cerca de metade dela proveniente dos financiamentos. Por isso, compras à vista são desestimuladas e os descontos raramente compensam, cooptando o consumidor a fazer o parcelamento e a arcar com seus custos, inflacionando os preços dos veículos. No Brasil, aqueles que têm recursos para comprar à vista são punidos.

4 – As altas taxas de juros impostas pelo Governo Federal: esta não é uma questão partidária, pois TODOS os governos recentes praticam as maiores taxas de juros do mundo. Um alto percentual de financiamento não seria um problema se os juros praticados fossem razoáveis como em países desenvolvidos. Nos EUA, é possível parcelar um veículo a 4% ao ano com um bom perfil de crédito, enquanto por aqui a média gira em torno de 4% AO MÊS. Isso mesmo: financiar um carro no Brasil é mais de doze vezes mais caro que nos EUA. Ao final do empréstimo, um americano pagará cerca de 25% do valor do bem em encargos financeiros, enquanto o brasileiro pagará o triplo (200%).

Apesar desse desestímulo, o Brasil tem a maior taxa de veículos financiados do mundo. Um triste reflexo da falta de educação financeira por aqui, que custa muito caro à nação e enche os bolsos de montadoras e banqueiros. Este é um hábito que o brasileiro urge em repensar.

5 – A escolha pelos clientes de veículos caros demais para sua renda: comprar um automóvel é um ato carregado de forte carga emocional. Os vendedores sabem disso muito bem e recebem treinamento para explorar este fator. Argumentos como “leva o mais completo, são só mais 80 reais na parcela!” escondem o fato de que em um financiamento de 60 meses, esses “inocentes 80 merréis”terão um impacto de mais de R$ 6 mil em todo o fluxo de pagamentos.

Sem contar a desinformação sobre os custos de seguro, manutenção e impostos, os quais podem sobrecarregar o orçamento do consumidor e causar inadimplência e problemas financeiros, contribuindo para mais aumento de preços.

O consultor automotivo Leandro Mattera escreveu um excelente artigo que retrata este problema: Carros: conheça a (caríssima) Estrutura de Preços no Brasil.

6 – A valorização do carro como símbolo de status: um desdobramento do item 5 consiste na supervalorização do automóvel como símbolo de status e sucesso, muito presente na sociedade brasileira. O desejo de não ficar por baixo em seu círculo social, modismos gerados pela mídia ou por celebridades, o desejo de sempre ter o mais novo lançamento ou o uso do veículo como tentativa de mascarar problemas emocionais e de autoestima pode gerar sérios problemas financeiros.

Leandro Mattera também escreveu sobre isso: Carros: por que pagar (cada vez mais caro) por status?

Outro ponto negativo consiste na supervalorização de um modelo ou tipo de veículo por um grupo social, levando a distorções em seus preços e engordando mais ainda a margem de lucro das montadoras. Na maioria das vezes, os automóveis não possuem refinamento técnico para justificar os aumentos, sendo pura inflação de demanda. O consumidor inteligente escapará dessa armadilha fugindo de modismos e compras acima de sua real capacidade financeira. O link abaixo detalha este fenômeno:

O preço dos carros no Brasil são absurdos, mas uns são mais que outros. Veja como não ser explorado

Resumo da ópera: os altíssimos preços dos carros em terras tupiniquins estão relacionados a diversos fatores, alguns conhecidos por todos e outros não tão óbvios, como os detalhados nesta matéria. Os impactos financeiros e econômicos e a psicologia comportamental dos consumidores têm um peso tão grande ou até maior que os tradicionais custo Brasil, lucro Brasil e carga tributária. Para resolver o problema em médio e longo prazo, é necessário aprofundar a análise. Espero ter contribuído com este singelo post.

*Custo de oportunidade: as empresas investem recursos na produção de veículos, os quais poderiam ser aplicados no mercado financeiro. A aplicação de referência são os títulos prefixados à taxa SELIC. Custo de oportunidade é a comparação entre o retorno do investimento na manufatura e nos títulos do Governo Federal. Portanto, fabricar carros só vale a pena se der um retorno maior que emprestar dinheiro ao Governo Federal.

**SELIC – é a taxa de juros que o governo brasileiro paga para pegar empréstimos. Em tese, a União é o melhor pagador da economia, assim pode emprestar dinheiro à menor taxa. Assim, serve como referência para todos os demais investimentos da economia.

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