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A verdade sobre os “carros de garagem”

carro não foi feito para ficar parado

carro não foi feito para ficar parado

O senso comum afirma que carros com pouco uso e baixa quilometragem costumam ser as melhores compras no mercado de seminovos e usados.

Os exemplares descritos como “carro de garagem” em anúncios em sites de compra e venda, sobre os quais os proprietários declaram que o veículo roda com frequências como “duas vezes por mês” ou “uma vez por semana” se mostram mesmo uma grande vantagem?

Adquirir automóveis os quais permanecem a maior parte do tempo parados são, de fato, boas compras? Ou apenas um mito criado pelo mercado?

No artigo Comprar um carro usado de baixa quilometragem sempre vale a pena?, tratou-se sobre o mito do número que aparece no hodômetro consistir em fator determinante no estado de conservação de um veículo, e em como generalizações são perigosas e podem levar a grandes prejuízos.

No caso dos proprietários que argumentam que compraram um “carro de garagem”, “só uso no diz de rodízio”, “comprei para a minha esposa, mas ela não dirige”, “comprei para usar no fim de semana”, “sempre dou uma voltinha no quarteirão” dentre outros, com o intuito de valorizar o veículo pelo pouco uso, realmente pode-se encontrar excelentes oportunidades.

Por outro lado, a falta de uso pode trazer junto sérios problemas mecânicos, com os quais o comprador pode ter muitos gastos e dores de cabeça. A lista abaixo elenca os mais comuns:

Problemas elétricos: ao permanecer estacionado por mais de cinco dias, a bateria começa a perder carga, normalmente por causa do consumo de energia elétrica pelo alarme e receptores do controle de abertura das portas. Sem uso, uma bateria será o primeiro componente a apresentar problemas. Em bom estado, ela estará totalmente descarregada em duas semanas, no máximo, a depender do modelo. Outra em fim de vida estará arriada em três dias.

A bateria depende da circulação de corrente para que tenha suas durabilidade e funcionalidade preservadas, e para isso não basta deixar o motor operando em marcha lenta por dez minutos toda semana, estacionado na garagem. Fazer uso regular por um mínimo de dez quilômetros, duas vezes na semana, se mostra fundamental para a manutenção dos componentes elétricos.

Ademais, o mau funcionamento da bateria pode afetar diversos subsistemas elétricos e eletrônicos, como módulos de ABS e controles eletrônicos, equipamentos de som e imagem, módulos e motores de vidros, travas, retrovisores e bancos elétricos, causando sua falha. A substituição pode custar milhares de reais.

Problemas no motor: assim como a bateria depende de ter corrente para manter seu bom funcionamento, o motor necessita da circulação do óleo para sua correta lubrificação.

Para isso, não basta deixá-lo funcionando em marcha lenta por alguns minutos. É preciso rodar com o veículo até que o motor atinja sua temperatura de operação – conhecida como fase quente – na qual o lubrificante atinge sua viscosidade ideal e flui com facilidade por todo o conjunto motriz.

Ir à padaria no sábado ou dar uma “voltinha no quarteirão” uma vez por semana se mostram insuficientes para evitar a criação de borra – a “coagulação” do óleo do motor – e descarbonização da câmara de combustão, causada pelo funcionamento em baixas rotações e na fase de aquecimento, a fase fria. 

A inobservância deste cuidado causará falhas nas lubrificação e entupimento dos filtros e da bomba de óleo, levando ao mau funcionamento, baixa performance ou ao colapso da unidade motriz -no popular, “fundir o motor”.

As acelerações, oscilações de regimes de funcionamento, trocas de marcha e rodagem em velocidades constantes se mostram salutares para a saúde do motor, juntamente com a manutenção adequada e uma regularidade de pelo menos duas vezes por semana no uso do veículo.

Outro cuidado importantíssimo consiste no respeito ao prazo da troca de óleo. Todo combustível e lubrificante possui prazo de validade em quilômetros rodados ou meses de uso.

Trocar o óleo do motor e filtros a cada doze meses, no máximo, independente da quilometragem, se mostra um cuidado fundamental para a preservação do motor, pois o fluido perde suas propriedades lubrificantes após este prazo.

O proprietário que não observar este cuidado pode ter prejudicado o motor de seu carro sem tomar conhecimento ao deixá-lo parado, criando pontos de alta viscosidade, ou até solidificação, do óleo. O comprador, ao colocar no uso um automóvel cujo propulsor está contaminado desta forma, observará mau funcionamento e entupimento dos componentes citados acima, precisará fazer uma limpeza completa nos componentes internos no motor, a qual possui custo elevado.

Caso o processo não esteja avançado, serão necessárias trocas constantes de óleo e filtros até a completa eliminação das impurezas e troca de diversos componentes,  procedimentos de descarbonização e substituição de velas e cabos de velas.

Problemas em componentes de borracha – especialmente mangueiras e pneus. Estes materiais dependem do uso regular para manutenção de suas propriedades físico-químicas, obtidos pela sujeição às temperaturas, pressões e forças para as quais foram projetados.

As mangueiras de circulação de fluidos do motor, transmissão, ar condicionado, direção assistida, combustível, freios e demais, dependem do funcionamento regular do veículo para manutenção de suas propriedades, nos parâmetros de projeto. Deixá-lo parado causa o ressecamento dos materiais, os quais apresentarão falhas ao serem colocados no uso regular.

Assim, um defeito extremamente comum de “carros de garagem” consiste no rompimento das mangueiras da água do radiador e direção hidráulica, as quais causam a parada do veículo e até incêndios, causados pela deterioração do material por falta de uso.

Neste caso, o argumento da baixa frequência de uso depõe contra o veículo. Ao negociar a compra de um exemplar nessas condições, conferir o estado de conservação das mangueiras e dutos de borracha é obrigatório, sob pena de panes severas.

A suspensão também possui diversos componentes feitos de materiais elásticos metálicos e poliméricos, como buchas e batentes de suspensão, causando mau funcionamento da mesma com perda de controle direcional e conforto, com ruídos, batidas secas e rangidos.

O mau funcionamento também pode ser causado por componentes metálicos como molas, amortecedores e outras peças do sistema, os quais podem ser conservados pelo uso constante em condições normais de rodagem. Naturalmente, um automóvel parado mantém sua suspensão inoperante e necessita circular para evitá-lo.

Os pneus, devido à sua enorme importância para a segurança, se mostram um capítulo à parte. A esmagadora maioria dos motoristas desconhece o fato de que eles também possuem prazo de validade, independente de seu desgaste. A borracha perde suas propriedades mecânicas após cinco anos, em média.

Carros de garagem mais antigos precisam ter seus pneus substituídos, mesmo que se encontrem em bom estado. Pneus vencidos tornam a suspensão rígida e não conferem a aderência necessária em condições de chuva e altas velocidades, se mostrando  realmente perigosos.

Caso o veículo tenha permanecido sem uso algum por muitos meses ou anos, e/ou exposto ao tempo quente e frio, há a probabilidade de a borracha ter criado um endurecimento na parte da banda em contato com o solo, na qual todo o peso do automóvel ficou apoiado. Neste caso, a troca deverá ser imediata, pois compromete totalmente a estabilidade e gera grande ruído de rodagem nos pontos no qual se formou o “calço” em razão do calor e frio.

Outros componentes de borracha como palhetas dos limpadores e bandas e anéis de vedação contra água e poeira também podem sofrer prejuízos, permitindo infiltrações e acúmulo de sujeira. Entretanto, sua substituição costuma ser fácil, rápida e barata.

SÍNTESE

Para relatar o conteúdo deste texto, segue um caso que ocorreu com um colega que cursou engenharia mecânica comigo, o qual sofreu o infortúnio de perder o pai aos dezessete anos.

Seu genitor possuía um carro que passou a ser utilizado pelo meu companheiro de curso apenas dois ou três anos depois, quando ele começou a estagiar, necessitando dele para se locomover entre trabalho e faculdade e podendo arcar com os custos de manutenção. Antes disso, permaneceu completamente parado por todo este ínterim.

Após voltar ao uso com meu colega, toda a série de defeitos passou a acontecer em série. Os primeiros três meses se mostraram uma sucessão de panes. Naturalmente, eles começaram pela parte elétrica. Após a troca da bateria, ocorreu a queima de módulos de vidro e problemas no sistema de som, original de fábrica.

Ciente dos possíveis problemas de motor, ele tratou de trocar óleo, filtros, velas e cabos de vela. Porém, isso não foi o suficiente para o livrar de dois rompimentos de mangueiras, uma do radiador e outra da direção hidráulica, e problemas de injeção, o deixando na rua algumas vezes.

Passado este período inicial, ele passou a ter um carro em perfeito funcionamento e com estofamento e plásticos de revestimento muito novos, com aparência de zero quilômetro.

CONCLUSÃO

Carros não foram feitos para ficar parados. Assim como os seres humanos. Tente deixar uma pessoa deitada em um leito de hospital por muito tempo. Isso resultará em problemas ortopédicos, de locomoção e imunidade. Pessoas sedentárias não conseguem fazer grandes esforços sem sentir cansaço e apresentam diversas moléstias decorrentes da fata de exercício. O mesmo ocorre com carros: a falta de uso certamente acarretará problemas mecânicos dos mais diversos tipos, além da perda de performance.

Finalmente, pode-se concluir que o “carro de garagem” não constitui algo tão bom quanto os leigos imaginam, tampouco se mostra vantagem em relação aos exemplares usados com regularidade. Tal fato não impede que se faça ótimos negócios com eles, observando a manutenção necessária para o bom retorno ao uso normal, resultando em um veículo de ótimas aparência e confiabilidade.

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