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Picapes compactas: de volta às raízes

As picapes nasceram para o trabalho, assim como suas variantes fechadas, os furgões. Como em qualquer país, o Brasil tem seus modelos próprios, apelidados de “jabuticabas”. A mais conhecida é o motor bicombustível ou “flex”, tema do artigo anterior. A segunda é a picape derivada de hatch compacto, tema deste texto.

Em um país de dimensões continentais e economia baseada em agronegócio e indústria, a picape compacta foi a solução encontrada para o transporte de cargas leves em áreas urbanas e rurais, a preços mais acessíveis aos trabalhadores, pequenos empresários e frotas de grandes corporações.

Este artigo trata do nascimento, ascensão e retorno às raízes de uma categoria de veículo típica do Brasil, que é, sempre foi e sempre será muito popular.

ALTERNATIVA ÀS PICAPES TRADICIONAIS

As picapes tradicionais, com carroceria sobre chassis e motor diesel, eram grandes, lentas, caras e desconfortáveis. Elas foram concebidas para o mercado norte-americano nos anos 20, quando aquele país teve seu processo de motorização.

As picapes médias e grandes, com motores turbodiesel e capacidade de carga superior a uma tonelada têm seu lugar cativo em nossas ruas e estradas de terra, mas o Brasil têm suas peculiaridades, as quais criaram o nicho das picapes compactas.

Inacessíveis à maior parte dos consumidores, havia uma demanda reprimida por utilitários leves, econômicos e baratos de manter. Rodar com uma picape beberrona, desajeitada e fumacenta era caro e desconfortável. Sabendo disso, uma solução mais acessível surgiu por aqui.

Os “automóveis com caçamba” chegaram ao Brasil em 1978, com o lançamento da Fiat 147 Pickup. Em suas raízes, estes utilitários compactos eram voltados para o trabalho leve em grandes centros.

Em 2014, fomos surpreendidos novamente por uma grande mudança no mercado, a qual devolveu as “picapinhas” à suas raízes obreiras. Confira a história de sua ascensão e retorno às raízes.

AUTOMÓVEIS COM CAÇAMBA

Para trabalhos leves e cargas de até meia tonelada, picapes e furgões compactos como Volkswagen Saveiro, Fiat Fiorino e Chevrolet Montana cumprem o papel de um utilitário a custos de modelo popular. Para criar estes utilitários, a inspiração veio da terra dos cangurus.

Os australianos passaram por demanda parecida e encontraram sua própria solução: as Utes, picapes construídas em plataforma de sedãs mid-size como Holden Commodore (nosso “Omega Australiano”) e Ford Falcon.

Por lá, sedãs médios com caçamba cumpriam o papel de permitir que pequenos empreendedores levem cargas leves, preservando o conforto de um carro de passeio

Ute Dodge Sport Pack
Utes australianas, inspiração para as picapes compactas brasileiras.

Outros países como a Itália, pátria-mãe da Fiat, criou os furgões compactos e utilitários todo-terreno como o Panda, muito popular entre pequenos negócios e áreas rurais do Velho Mundo.

Todavia, picapes não fazem sucesso por lá, nos quais as versões “fechadas” dominam. Após detectar a predileção brasileira pelas picapes, a marca de Turim resolveu fazer uma picape compacta do modelo 147, em sua recém-inaugurada fábrica de Betim, Minas Gerais.

fiat 147 pickup picapes compactas
Fiat 147 Pickup, a primeira picape compacta do Brasil

Concebidas para o trabalho, as picapes compactas foram muito bem aceitas pelo mercado e sua oferta se proliferou com força em 1982. A Ford passou a oferecer a Pampa, derivada do Corcel II, a Volkswagen lançou a Saveiro, construída na base do Gol BX, a Fiat lançou a Fiorino, feita sobre a perua Panorama, nas versões furgão e picape.

LEI DE ISENÇÃO DE IMPOSTOS

Já consolidadas no mercado, as picapes compactas ganharam uma mãozinha do governo. Em meados dos anos 80, foi promulgada uma lei concedendo incentivos tributários para veículos comerciais, nos quais as compactas se incluíam.

Algo mais ou menos na linha dos incentivos para veículos PcD (portadores de necessidades especiais) na atualidade.

A redução de IPI, ICMS, IPVA e outros tributos tornaram os utilitários até 30% mais baratos de comprar e manter, em comparação com os hatches e sedãs dos quais derivam.

Esta mudança na legislação chamou a atenção de outros perfis e criou um novo nicho de mercado: as picapes aventureiras.

A FASE “COOL” DAS PICAPES COMPACTAS

O preço menor chamou a atenção de pessoas físicas, as quais pretendiam usá-las como veículo de passeio, off-road e/ou preparação para competições automobilísticas.

Como os fabricantes não dormem no ponto, logo se adaptaram à demanda e criaram versões de passeio “aventureiras”, com vendas consistentes durante as duas décadas seguintes.

Saveiro Sunset, versão “cool” de uma “caminhonete de trabalho”

Séries especiais como Saveiro Sunset e Fiorino Trekking embarcaram no espírito aventureiro de outra febre da época: o surf.

Jovens descolados e com perfil aventureiro adotaram as picapes compactas como o veículo perfeito para seu estilo de vida, dividindo a atenção dos fabricantes com os clientes que as utilizavam para o trabalho e com o perfil abaixo.

PREPARAÇÃO PARA COMPETIÇÃO

Por serem leves e baratas, as picapes passaram a ser procuradas para preparação para competições e “rachas”, pois sua aceleração superava a dos hatches e sedãs das quais derivavam.

Na balança, a ausência do teto aliviava algumas dezenas de quilos do peso total do veículo. Os ganhos em aceleração eram “pagos” em pior distribuição de peso, dando a fama de “rabear” e se envolver em acidentes causados pelas saídas de traseira.

As picapes compactas, principalmente a VW Saveiro e seu consagrado motor AP, eram as estrelas das oficinas de preparação e “pegas” nas pistas e nas ruas. A predileção pelo conjunto mecânico da Volkswagen vem de longa data e perdura até hoje.

O AUGE DA PREFERÊNCIA DOS MOTORISTAS

Sua pegada jovem e “cool” fez as picapes compactas cair no gosto dos jovens, solteiros e descolados por cerca de duas décadas. Sem abandonar seu público “raiz”, pessoas e empresas que utilizam o veículo para trabalho de transporte de cargas e volumes.

Ao longo do tempo, a quantidade de marcas, modelos e versões se multiplicou e atendeu a todos os públicos. Abertas, fechadas, heavy duty, aventureiras, curtas, longas, de cabine simples, estendida e dupla, dentre tantas.

A variedade de versões dos utilitários compactos se expandiu a ponto de criar uma nova categoria.

VERSÕES COM CABINE DUPLA

Uma das principais queixas de alguns consumidores residia na ausência de banco traseiro. A partir daí, a Fiat lançou uma versão da Strada Adventure com cabine dupla, com capacidade para cinco pessoas – mesmo que apertadas.

A ascensão dos SUV´s correu em paralelo ao trabalho da marca italiana, a qual se fundiu com o Grupo Chrysler, criando a FCA (Fiat Chrysler Automobile). A marca Jeep reforçou o conglomerado e trouxe novas plataformas e motores ao grupo.

Com a nova aquisição, a linha de utilitários compactos da Jeep foi o mais novo sucesso do grupo no Brasil e no mundo. No segmento que mais cresce no mundo, o de utilitários esportivos, a FCA soube capturar o mercado em expansão com o expertise de quase 80 anos da Jeep.

Os modelos Renegade e Compass lideram as vendas de SUV´s compactos por aqui e forneceram a base mecânica do modelo que remeteu as picapes e furgões compactos às suas raízes “trabalhadoras”: a Fiat Toro.

FIAT TORO E O BOOM DOS SUV´S

Pouco antes, a Renault lançou a picape derivada do SUV compacto Duster, a Oroch. Mesmo sendo a pioneira em lançar uma picape derivada de SUV compacto, o projeto não empolgou o público devido à execução pobre. O design insosso, desempenho fraco e alto consumo não convenceram e o veículo patina nas vendas.

Percebendo o potencial da nova categoria, a Fiat Toro garfou o público das picapes compactas com o design bonito, fartura de equipamentos opção de motor diesel e tração 4X4 a preços competitivos.

Trazendo os benefícios das picapes médias a preços competitivos, a Fiat Toro capturou parte do público das picapes compactas aventureiras, favorecida pela onda SUV.

Assim, os compradores “descolados”, “de espírito jovem”, “cool” e “aventureiros” das Fiat Strada Adventure, Chevrolet Montana Sport e VW Saveiro Surf migraram para a Fiat Toro ou o segmento dos SUV´s.

Eis a razão mercadológica do retorno às raízes de picapes como Fiat Strada, líder do segmento, Chevrolet Montana e VW Saveiro. A falta de lançamentos na categoria e idade avançada dos projetos demonstra a força do novo segmento de picapes derivadas de SUV´s compactos.

VOLTA ÀS RAIZES “OPERÁRIAS”

O público aventureiro migrou para os SUV´s e picapes cabine dupla e as “picapinhas” voltaram às suas raízes de trabalho. A mesma marca que criou o segmento – e o lidera com folga – criou o modelo que reduziu sua demanda.

A Fiat Strada atual tem a frente do antigo Palio, descontinuado em 2016. O projeto da VW Saveiro data de 2009, e o a Chevrolet Montana deriva do malfadado Agile, descontinuado em 2014.

Ao invés de investir em versões “Adventure”, “Surf”, “Sporting”, “Cross” ou “Summer”, a Fiat criou a Strada “Hard Working” e a Volkswagen prioriza a Saveiro “Robust”, claramente focadas em capacidade de carga e resistência mecânica.


fiat strada hard working
Strada Hard Working, a picape raiz. Rodas e pára-choque pretos denotam a vocação para o trabalho pesado.

PICAPE “RAIZ” E PICAPE “NUTELLA”

A rica história de um produto tipicamente brasileiro – as picapes e furgões derivados de carros compactos – mostra que os últimos anos fizeram os produtos se manterem fiéis às suas origens – veículos leves, ágeis, robustos de de baixo custo de operação.

Os antigos consumidores das versões de passeio estão mais bem atendidos em seus novos nichos, com a Fiat Toro, Renault Oroch e SUV´s. A Volkswagen prepara a Tarok, sua própria picape derivada do T-Cross, e a conhecemos no Salão do Automóvel 2018.

volkswagen tarok
Volkswagen Tarok, a anti-Toro da Volkswagen

As qualidades que seus consumidores “raiz” mais valorizam permanecem firmes e fortes em suas propostas. Os números de vendas não deixam mentir: o segmento de picapes compactas colocou 126.369 unidades nas ruas, compostos de 67.233 Fiat Strada, 45.925 Volkswagen Saveiro, 13.115 GM Montana e 96 exemplares de outros modelos.

Os números robustos mostram que as picapes compactas hard working terão vida longa em nosso mercado.

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