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Questionando o comportamento do condutor brasileiro

Os três artigos anteriores sobre o cenário do trânsito brasileiro abordaram os resultados obtidos, uma análise sucinta sobre a origem do quadro, a conveniência do poder público em manter a ordem das coisas como está e uma solução eficiente de fiscalização, aplicada com sucesso em alguns países e com benefícios muito além da mera fiscalização.

Entretanto, falta abordar uma importante lacuna: o comportamento do motorista brasileiro e sua influência na segurança viária, assim como na ordem e civilidade no tráfego. Aí mora a raiz de todos os problemas enfrentados pelo motorista tupiniquim.

Infelizmente, uma fiscalização rígida ainda se mostra necessária, pois a cultura de respeito ao próximo e se portar priorizando o respeito ao próximo, não por medo de receber multas.

A pergunta que dá o tom desta matéria é:

COMO SERIA O COMPORTAMENTO DO BRASILEIRO AO VOLANTE SE NÃO

HOUVESSE FISCALIZAÇÃO?

A resposta é evidente. Devido às deficiências culturais e educacionais do país como um todo, o brasileiro não foi ensinado a se portar de maneira correta por senso de dever cívico. Isso ocorre em todas as esferas da vida, especialmente na direção de um veículo automotor.

Parece utopia? Moralismo? Em países de cultura de respeito no trânsito mais avançada, trata-se do comportamento padrão da maioria dos motoristas.

Veja este vídeo do canal Luis Miranda USA, mostrando um ótimo exemplo de como funciona o trânsito na Flórida, Estados Unidos:

Você acha que este conjunto de leis funcionaria no Brasil?

O brasileiro, de modo geral, necessita da coerção legal para agir em prol da manutenção da ordem e segurança no trânsito. Os países tidos como exemplos a serem seguidos por aqui, em sua maioria, possuem estrutura de fiscalização menor do que a nossa e o volume de autuações representa uma pequena fração do efetuado pelos nossos Detrans.

Contudo, o tráfego nesses países se desenrola de modo muito mais civilizado devido à postura dos motoristas, os quais respeitam as normas de trânsito voluntariamente, mesmo sem fiscalização alguma.

Eles compreendem que devem dirigir dentro da lei por respeito ao próximo, não por medo de ser multado. Aqui está a maior diferença.

No dia em que este comportamento se fixar como regra entre os motoristas brasileiros, o número de vítimas de acidentes sofrerá forte queda, juntamente com a quantidade de registros de infrações pelas autoridades.

IMITAÇÃO DE COMPORTAMENTOS

As mazelas do trânsito brasileiro se iniciam antes de o cidadão se sentar atrás do volante pela primeira vez. Crianças tendem a imitar os atos dos adultos. Ao crescerem vendo os pais e demais adultos guiando de maneira agressiva e egoísta, incentivando a “guerra no trânsito”, tendem a perpetuar tais práticas assim que receberem sua CNH e ganharem as ruas.

Impropérios como “já passou o radar, pode acelerar”, “no trânsito é cada um por si”, “pode tirar o cinto, não tem guarda olhando”, “por que vou respeitar as leis se os outros também não respeitam?”, “autoescola não serve para nada. Compra a carteira e depois você aprende a dirigir na prática”, dentre tantos, fincaram raízes profundas no inconsciente dos brasileiros, causando resultados trágicos.

Enquanto estas e outras tantas crenças limitantes não forem extirpadas das mentes dos condutores brasileiros desde crianças, não conseguiremos conquistar a qualidade no trânsito que almejamos.

DEFICIÊNCIAS NA FORMAÇÃO DE CONDUTORES

Para isso, deve-se fazer uma análise sobre as instituições nas quais a maioria das pessoas recebem as primeiras – quase sempre as únicas – aulas sobre trânsito e automóveis em suas vidas: as autoescolas.

Este tema já foi abordado anteriormente neste artigo: Por que o modelo atual de formação de condutores está ultrapassado e precisa de mudanças

Há consenso entre os especialistas em educação no trânsito de que os centros de formação de condutores não ensinam os alunos a dirigir. Apenas adestram os candidatos à CNH a passar no exame prático.

O exame escrito, de múltipla escolha, cobra apenas conteúdos banais como o significado de placas de trânsito, noções de legislação e rudimentos de direção defensiva. De tão trivial, não há exagero em afirmar que apenas pessoas com dificuldades cognitivas e indivíduos que chegaram recentemente ao Brasil e não entendem nossas leis de trânsito.

Em suma, os recém-habilitados possuem conhecimentos teóricos extremamente superficiais sobre um assunto tão complexo quanto guiar um veículo automotor. Ao assumir o volante pela primeira vez, se sentem despreparados e apreensivos, pois descobrem que vão precisar aprender a dirigir de verdade.

Nada, absolutamente nada, colabora para que os condutores aprendam o mínimo necessário para guiar um veículo com segurança. O conteúdo programático sobre mecânica e manutenção de automóveis, primeiros socorros, meio ambiente, direção defensiva, educação no trânsito, legislação, documentação e toda a parte prática se mostra demasiadamente complexo para ser transmitido em vinte horas de aula, em cinco dias de quatro horas cada.

PARALELO ENTRE O PROCESSO DE HABILITAÇÃO NO BRASIL E NA ALEMANHA

A obrigatoriedade de matrícula em um Centro de Formação de Condutores (CFC) ocorre somente no Brasil. Em outros países, Estas instituições de ensino existem por lá, mas o candidato a motorista pode estudar por conta própria, caso prefira. A prova teórica exige conhecimentos mais extensos e aprofundados, os quais demandam um mínimo de um a dois meses de estudo intensivo para obter aprovação.

No site Manha de Alemanha, a arquiteta brasileira Lais explica como funcionam as provas teórica e prática no país mais apaixonado por carros do planeta. Ela relata que o processo de habilitação demora cerca de uma ano por lá, ante dois a três meses por aqui.

O principal motivo para a delonga reside no formato da prova prática. No exterior, ela ocorre em condições reais, no tráfego das ruas centrais, avenidas, pequenos trechos de rodovias,  com duração de 45 minutos a uma hora.

Todas as habilidades necessárias são exigidas no teste, como respeito à preferência de conversão, manobras de baliza, meia-volta, frenagens de emergência e respeito à sinalização e leis de trânsito. Apenas motoristas em plenas condições de dirigir conseguem a aprovação, cuja preparação demanda meses de aulas práticas.

No país germânico, o instrutor persiste pelo tempo necessário para que o aluno tenha plenas condições de ser aprovado, posto que erros suficientes para a reprovação em uma prova tão longa quanto 45 minutos podem acontecer a qualquer momento. Soma-se a isso o custo do reexame, superior a 200€, ante 30€ de cada aula. Assim, o orientador fará a inscrição de seu aprendiz apenas quando estiver em boas condições para ser aprovado.

A realidade brasileira se mostra o exato oposto, visto que a esmagadora maioria dos recém-habilitados não possuem preparo para conduzir um automóvel. Os exames não exigem os conhecimentos mínimos para assumir o volante de modo esclarecido, posto que não se forma motoristas capazes com apenas 20 horas de teoria e 15 de prática.

SE A SITUAÇÃO É TÃO GRAVE, POR QUE NINGUÉM BUSCA NENHUMA MUDANÇA?

Pela dificuldade de sair da zona de conforto de todos os agentes envolvidos no processo de formação de condutores. Os políticos e burocratas temem desagradar os órgãos gestores do tráfego sugerindo mudanças estruturais no sistema. A queda de arrecadação com emissão de documentos e autos de infração desagrada aos operadores do sistema viário e de registro de veículos.

Também não lhes convêm desagradar a indústria de formação de condutores, a qual  precisaria de investimentos pesados para se adequar às novas exigências implantadas ao novo modelo de negócio e redução de receitas fáceis de auferir, como renovações de carteira e exames psicotécnicos. Sem mencionar a máfia da “compra de carteiras”, a qual teria muito mais dificuldades em continuar com suas práticas escusas, em simbiose com alguns agentes públicos.

A população, por sua vez, não enxerga com bons olhos o aumento de dificuldade dos testes teórico e prático, em conjunto com o aumento do tempo de formação e dos custos do processo. A maioria deseja condutores mais capacitados, mas poucos desejam capacitar a sim próprios primeiro.

O nível de conhecimento automotivo do motorista brasileiro médio é tão rudimentar que seria necessário reciclar a quase totalidade dos condutores com atualização de conhecimentos teóricos e práticos. Alguns especialistas sugerem que todos os condutores deveriam retornar aos CFC´s, quando do vencimento de suas quando suas CNH´s,  a fim de reciclar seus conhecimentos, aprendendo novos, mais aprofundados e atualizados, e precisassem fazer novos exames.

O embasamento consiste no fato de que muitos motoristas fizeram seus cursos de formação há trinta ou quarenta anos, sem participar de nenhum treinamento de atualização desde então. Isso explicita a urgência em reciclar TODOS os motoristas do Brasil em um prazo de cinco anos, com a aplicação de novas provas teóricas e práticas.

Caso tal medida fosse implantada, estima-se que o número de feridos caia pela metade e o de mortes seja reduzido para um terço do patamar atual, com base em resultados de países nos quais tal medida foi tomada, como Austrália e Nova Zelândia nos anos 1980. A melhoria na segurança veicular agiu em sinergia com a modernização no processo de habilitação e reciclagem, reduzindo as mortes em mais de 80% desde 1980.

AS PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

Todas as propostas acima se encontram em discussão pelos estudiosos de trânsito há algum tempo e entregaram bons resultados nos lugares nos quais vigoram.

Para incentivar a reflexão sobre o motorista brasileiro, as quatro perguntas e respostas abaixo revelam muito:

  • O condutor brasileiro aprovaria tais medidas?
  • Abriria mão de algum tempo livre para ser um motorista melhor?
  • Estaria disposto a retornar às aulas para dirigir melhor e contribuir para um trânsito mais pacífico, visando à melhora no trânsito?
  • Estaria disposto a aplicar algumas centenas de reais para adquirir novos conhecimentos automotivos?
  • Estaria disposto a mudar atitudes ao volante em primeiro lugar, antes de exigir as mesmas dos demais participantes do trânsito?

Aqueles que responderam SIM são parte da solução. Os que responderam NÃO são parte do problema.

Nos países admirados pelos brasileiros pela civilidade no trânsito, a resposta SIM a todas as perguntas consiste em uma  quase unanimidade.

Por aqui, a mentalidade não é a mesma, e isto explica nossa situação. Enquanto o brasileiro privilegiar o próprio conforto e conveniência em detrimento de uma cultura de paz e ordem nas ruas, jamais atingiremos o nível de civilidade de Alemanha e Japão.

Estes questionamentos duros erguem as bases para a evolução nos transportes que buscamos, e estes ofendem alguns indivíduos, entidades públicas e empresas acostumados à sua zona de conforto e conveniência, os quais terão que se curvar ao avanço cultural em desenvolvimento no mundo todo.

Não há meios de frear esse avanço.

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