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Por quê o modelo atual de formação de condutores está ultrapassado e precisa de mudanças

As deficiências no processo de formação de condutores pelas autoescolas brasileiras se mostram um consenso entre a população e especialistas em transportes. A base teórica e prática exigida nas provas é insuficiente para que os futuros condutores detenham os conhecimentos e habilidades mínimas para conduzir um veículo com segurança.

Na visão mais branda, pode-se afirmar que os CFC´s apenas  adestram os aspirantes à CNH a treinar “macetes” para passar na prova. Como todo os tipos de ensino no Brasil, deve-se estudar duas vezes: uma para passar na prova e outra para aprender efetivamente.

Este artigo esmiúça as mazelas na formação de condutores por aqui e propõe melhorias em nosso processo de habilitação.

PRÓLOGO

Não é possível ensinar a complexa arte de dirigir em apenas 20 horas de teoria e 15 aulas práticas ao longo de um ou dois meses. Um motorista não está apto a ganhar as ruas após passar em uma prova na qual ele deve apenas fazer uma baliza, uma saída em rampa, dar setas em todas as conversões e fazer algumas paradas.

O motorista tupiniquim recebe a carteira de habilitação nacional sem noções plenas de primeiros socorros, meio ambiente, segurança veicular, parâmetros de escolha de veículo para aquisição, mecânica básica, legislação e documentação e todos os assuntos teóricos mais relevantes.

Nossas autoescolas não ensinam habilidades importantes como frenagens de emergência, controle de veículos em pisos molhados e curvas fechadas, instalação de equipamentos de segurança como cadeirinhas de bebê e transporte de animais e bagagens. Matérias triviais em qualquer processo de formação em países avançados passam longe de nossos CFC´s.

Posto isso, não há surpresa em constatar que os novos condutores ganham as ruas despreparados e permanecem ignorantes no assunto por toda a sua vida, salvo os mais entusiastas dos automóveis. A falta de educação automotiva adequada se mostra a origem das tenebrosas estatísticas de trânsito observadas no Brasil.

Em outros países, especialmente os europeus, a preparação para o trânsito é levada a sério. Boa parte dos candidatos a assumir o volante são reprovados logo de cara, no exame psicotécnico, algo raríssimo de ser ver por aqui.

Passada essa fase, enfrentam um curso teórico de cerca de 200 horas/aula, presenciais ou EaD, abordando assuntos complexos, como mecânica avançada, direção defensiva, primeiros socorros e legislação, fora aspectos da cultura do automóvel e psicologia ao volante. Para ser aprovado na prova teórica, é necessário estudar com afinco.

As aulas práticas envolvem direção em condições reais, muito além do mero controle do carro e “macetes para passar na prova”, pois o teste final acontece nas ruas, e inclui rodar em estradas, preferência em cruzamentos e frenagens de emergência. Em suma, realmente ensina os condutores a guiar e leva quase uma ano até a conclusão. Sua consequência reside na mortalidade baixíssima no trânsito do velho continente, cerca de um quinto do brasileiro.

O nosso modelo exige um teste psicotécnico frouxo, no qual a condição psicológica do candidato não é avaliada corretamente. As aulas teóricas são superficiais, no qual os alunos aprendem muito pouco e assim permanecem por toda a vida. Não ensinam nem o mínimo necessário.

As aulas práticas se resumem a ensinar a passar no teste prático, pois a maioria dos aprendizes não aprendem a rodar em condições reais, apenas os truques e dicas para a prova final. Chegam inseguros ao teste e costumam ser assediados por instrutores corruptos os quais vendem facilmente a CNH, ignorando o desempenho na prova.

Alguns recebem a carteira e jamais dirigem. Os demais, adquirem maus hábitos ao volante e se expõem a situações perigosas, especialmente nos primeiros anos de habilitação. Desconhecem a importância da segurança veicular, manutenção preventiva e controle de emissões de poluentes.

Enfim, independente de serem aprovados honestamente ou “comprar a carteira”, todos saem despreparados para a vida real, exceto os poucos motoristas os quais buscam orientação externa. Muitos condutores os quais jamais poderiam sentar atrás de um volante ganham a habilitação.

Mas o que fazer para reverter este quadro? O que podemos aprender de outros países com sucesso na educação automotiva? Segue abaixo seis propostas:

1 – Exames médico e psicotécnico eficientes

No modelo atual, os exames médico e psicotécnico se mostram apenas uma formalidade, visto que pouquíssimos candidatos são reprovados, incluindo indivíduos sem equilíbrio emocional e coordenação motora suficientes para a tarefa de guiar um veículo. Aplicando um método de seleção eficiente, muitos motoristas potencialmente perigosos ou inaptos jamais ganhariam as ruas, reduzindo consideravelmente os acidentes de trânsito.

2 – Centro de Formação de Condutores (CFC) de alto nível

No sistema vigente, os aspirantes têm carga horária de apenas 20 horas/aula e aprendem conhecimentos muito superficiais, majoritariamente focados em legislação de trânsito. Pouco aprendem sobre mecânica e tecnologia de veículos, variedade de tipos, condições de tráfego, psicologia do trânsito, direção defensiva, primeiros socorros e cultura do automóvel.

O teste aplicado pelo DETRAN também se mostra frouxo, com poucas questões de testes de múltipla escolha, o qual desconsidera muitos aspectos fundamentais para a vida prática. Não conecta teoria com prática. Nos países com menor índice de mortalidade, os cursos têm duração mínima de 180 horas/aula e o aluno pode estudar por conta própria em EaD e/ou apostilas, sem a obrigatoriedade de frequentar um CFC, se não desejar.

3 – Combate à “compra” de CNH´s

Muitos motoristas ignoram as aulas práticas e não aprendem a dirigir corretamente pois sabem que podem “comprar” a carteira via agentes inescrupulosos que contaminam os Detrans. Nos casos mais absurdos, pessoas recebem habilitação sem saber tirar o veículo do lugar, cegos são habilitados e indivíduos com transtornos psiquiátricos graves assumem legalmente o volante. O resultado é triste, mas esperado: acidentes graves e mortes no trânsito.

A melhor forma de combate à corrupção na concessão de licenças reside na mudança da metodologia da prova prática, de forma que seja longa o suficiente para que um motorista sem condições de dirigir não complete o percurso, ao mesmo tempo no qual os funcionários corruptos tenham dificuldades em praticar as fraudes.

4 – Instalação de câmeras e telemetria nos veículos

Outra medida eficiente consiste na instalação de câmeras e equipamentos de telemetria nos veículos de teste, com o intuito de fazer avaliações mais precisas e evitar fraudes como reprovação de motoristas com pontuação para passar, e vice-versa. Em caso de discordância do aluno em relação ao avaliador, a solicitação de vistas da filmagem e dados de funcionamento do veículo durante a prova possibilitam a revisão da avaliação.

5 – Aulas práticas que ensinem a dirigir de verdade

Por aqui, as aulas práticas não ensinam as pessoas a dirigir. Apenas as adestram a fazer o que será examinado na prova prática. O motorista recém habilitado aprenderá a guiar de fato nas ruas, sob orientação de parentes ou amigos nem sempre proficientes na arte de conduzir. Frequentemente, maus hábitos e comportamentos equivocados são ensinados aos detentores da permissão.

Uma carga horária mínima de 15 aulas práticas, de 60 minutos cada, consiste em  uma das exigências de nossa legislação para se candidatar à prova final. Evidentemente, o número exíguo de não ensinarão um motorista a dirigir, especialmente em lugares de pouco movimento e condições controladas.

Nos países de referência em educação no trânsito, as lições práticas incluem todas as condições reais, como trânsito pesado em centros urbanos e direção em rodovias. A carga mínima exigida gira em torno de 100 horas, mas frequentemente os alunos praticam mais horas.

6 – Prova prática em condições reais

Uma prova prática de dez minutos em uma rua afastada não tem nenhuma conexão com a realidade do trânsito. Nos países mais avançados, as provas duram de meia a uma hora e incluem rodagem em centros urbanos, ruas residenciais, rodovias, estradas de terra e até na neve. Habilidades como frenagens de emergência e ultrapassagens em vias de mão dupla também são exigidas no teste final.

A arquiteta brasileira Laís, dona do blog Manha de Alemanha e residente de lá, explica com riqueza de detalhes o funcionamento do processo de habilitação no país tido como um dos mais avançados em cultura automotiva. Confira como funcionam a validação da CNH e testes teórico e prático na terra da Volkswagen, Porsche, BMW, Mercedes e Audi.

A diferença é gritante. Por lá, realmente exigem que o candidato saiba dirigir para ser aprovado e possuem conexão com as aulas práticas. Enfim, um motorista habilitado ganha as ruas com plenas condições de dirigir.

DESVANTAGENS

Naturalmente, surgiriam algumas desvantagens neste processo.

  1. Forte aumento no custo de habilitação, devido às exigências de testes e carga horária;
  2.  O processo de formação e habilitação duraria um ano, aproximadamente, pois o teste final será aplicado a motoristas com pleno domínio do veículo, conhecimentos essenciais e sinalização;
  3. Redução do número de alunos matriculados, pois os menos interessados serão desencorajados a se habilitar devido ao grau de dificuldade do exame;
  4. Aumento da necessidade de estudo e esforço dos aspirantes a motorista, pois a habilitação será equivalente a um curso técnico.

CONCLUSÃO

O assunto se mostra muito controverso e existe larga divergência de opinião. Há consenso no fato de que todos desejam um trânsito mais seguro e condutores mais conscientes. Muita coisa precisa mudar, e está na hora de pressionar as autoridades por mudanças e modernização nas leis, cuja última revisão ocorreu em 1997.

Por outro lado, as deficiências de todos os condutores, desde o recém-habilitado aos com décadas de experiência, se apresentam de forma tão grave a demandar a reciclagem da totalidade dos detentores de CNH. Poucos destes estariam dispostos a pôr a mão no bolso e dispender dezenas de horas em aulas teóricas e práticas de atualização de conhecimentos automotivos. Por sua vez, os aspirantes ficariam receosos com o aumento das exigências.

A mensagem final é: para termos o trânsito que queremos, todos devem fazer sua parte no aprimoramento de conhecimentos, habilidades e educação ao volante.

 

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2 comentários em “Por quê o modelo atual de formação de condutores está ultrapassado e precisa de mudanças Deixe um comentário

  1. Há uma série de problemas na estrutura de formação dos condutores. Uma delas, creio é a formação do próprio instrutor. Na maioria das vezes, sem noção das abordagens didáticas. Ou seja, gente sem noção alguma de como identificar as necessidades e as dificuldades do aprendíz. E quando indentificam alguma dificuldade já não há mais tempo hábil para saná-la.
    Eu posso falar porque ví como é a abordagem didática de uma instrutora. Apontando insistentemente a falta e nunca mostrando ou exemplificado a solução. Chegando ao ponto de eu reclamar dessa insistência nas penalidades ou número de pontos que eu perdia e ela me dizer: ” Eu estou aquí para mostrar os erros que você comete.” Imbecil. Você está aí para mostrar como eliminar ou mesmo diminuir as probabilidades de eu cometer esse ou vários outros erros. Imbecil. Se você quer realmente ajudar, você se dispõe a mostrar como posso evitar os erros mais comuns e tornar menos prováveis outros que podem causar maiores problemas. Você exemplifica a forma correta. Imbecil. Aí, você se dá conta que não lhe dão informações básicas sobre os pedais e você acaba descobrindo por conta própria. As marchas não lhe mostram detalhadamente como fazê-las, a regulagem do banco e referências via espelhos são abordadas na baliza. Não lhe mostram como estacionar à esquerda e tantas outras falhas. Assim, as naturais dificuldades que o aprendiz traz por não dispor de um automóvel ou não dirigir se tornam ,verdadeiros traumas. E muitos jamais dirigirão um automóvel porque não foram corretamente instruídos. E, muito menos respeitados.
    É claro que esses instrutores não são professores, e muitos desenvolvem essa atividade como mero bico ou complemento, mas há outros que apesar de desenvolverem essa atividade profissionalmente não estão nem aí com o aprendiz que cair em suas mãos.
    E temos ainda, os orgãos que regulam os trânsito com suas determinações inconsequentes e burras como por exemplo, o número de aulas práticas. Assim, quem não dispõe de uma sala de aula ( automóvel ) e um instrutor ( de verdade, ou seja, alguém que deseja vê-lo realmente dirigindo com responsabilidade e respeito, como alguém da família, pai, mãe, irmão, ou mesmo um amigo), nem sempre consegue sair-se bem. Como resultado temos esse trânsito do qual todos reclamam e poucos agem para mudar essa realidade.

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