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8 fatos para entender a cabeça do consumidor brasileiro – Parte 2

Na parte 1, discorreu-se sobre as origens das preferências do consumidor brasileiro por automóveis tecnologicamente defasados, mas de mecânica robusta e barata. A foto de capa representa esta busca pela simplicidade e robustez em detrimento à tecnologia e refinamento.

A história econômica do País também tem um papel decisivo neste “conservadorismo automotivo”, pois todos os veículos são muito caros por aqui e a renda média do brasileiro o obriga a escolher o modelo “mais seguro”. Neste aspecto, deve-se fazer um mea culpa com o consumidor, o qual sofre com os preços exorbitantes dos veículos e peças.

Para os entusiastas, o alto preço dos veículos não justifica as escolhas feitas pela maioria dos consumidores brasileiros, pois existem boas opções de preços semelhantes. Curiosamente, as escolhas recaem historicamente sobre modelos com um conjunto constante de características.

A Parte 1 abordou a formação da mentalidade automotiva do brasileiro médio e como ela se desenvolveu ao longo do tempo. Esta sequência trata das semelhanças entre os modelos da foto de capa e as razões que levam os consumidores brasileiros a buscá-las, mesmo havendo opções.

4 – DESIGN FALA MAIS ALTO QUE SEGURANÇA VEICULAR

O desdobramento do item anterior aparece naturalmente. O povo brasileiro é exibicionista por natureza, por isso prioriza o status que o veículo pode proporcionar. Em grande parte das vezes, a aparência do modelo a ser escolhido predomina sobre todos os demais aspectos, especialmente na aquisição de modelos de luxo.

Estilo e força da marca aparecem como prioridade, em detrimento de aspectos mais técnicos como a qualidade de construção, respeito ao meio ambiente e segurança veicular.

Apesar de conferir grande importância à segurança em pesquisas de mercado, a prática contraria o discurso na hora da compra real. Considere o exemplo do quadro abaixo para constatar:

Na hora de fechar negócio, o vendedor oferece as opções abaixo de pacotes opcionais:

  1. Conforto – central multimídia, bancos em couro e ar digital;
  2. Segurança – sistema Isofix, airbags laterais e controles de estabilidade e frenagem;
  3. Estética – frisos cromados, rodas aro 17″ e faróis em LED.

Quais seriam os primeiros a serem escolhidos e qual o último?

A resposta é evidente para aqueles que conhecem a mente o consumidor brasileiro. As  concessionárias e lojas de acessórios vendem rodas de liga leve, faróis de neblina, lâmpadas de LED, frisos e grades de todas as cores e formatos, assim como centrais multimídias de todos os tipos. A demanda chega aos milhares de unidades mensais e os clientes se dispõem a pagar (muito) caro por eles.

Quando chega a vez dos equipamentos de segurança, pouquíssimos aceitariam qualquer desembolso extra por eles. A questão mais grave reside no fato de uma parcela enorme dos motoristas sequer conhece sua existência, muito menos para quê serve. Como convencer alguém da importância do Isofix e do controle de tração se ela desconhece suas funções?

Pela grande valorização de itens de aparência, conforto e entretenimento e baixo nível de conhecimento dos brasileiros sobre itens de segurança, os departamentos e marketing das montadoras concluíram que o consumidor brasileiro só comprará modelos com airbags e assistências eletrônicas de frenagem e estabilidade se estes vierem de série no veículo.

5 – O BRASILEIRO JÁ COMPRA O VEÍCULO PENSANDO NA REVENDA

O brasileiro já tira o veículo da concessionária planejando o momento da revenda. Enquanto o fabricante do antigo líder de mercado, o VW Gol, resolveu modernizar sua linha de motores com as unidades disponíveis em sua terra natal, a GM do Brasil optou por manter a mesma linha que estreou por aqui nos anos 1970 e 1980.

Como já mencionado no item 1, o consumidor brasileiro se mostra muito resistente às inovações tecnológicas e sua ampla aceitação ocorre de maneira lenta e gradual, ao longo de muitos anos.

Posto isso, o item 2 se mostra a consequência natural. A revenda de modelos equipados com tecnologia de ponta tende a ser mais difícil por causa da resistência de grande parte dos consumidores, os quais receiam sofrer com altos custos de manutenção, falta de peças, baixa confiabilidade e maior dificuldade em passar o veículo para frente.

É verdade que tais desconfianças se confirmam em alguns modelos, os quais realmente apresentam problemas na implementação de novas tecnologias. Por outro lado, modelos de ótima qualidade e inovações brilhantes sofrem para se consolidar no mercado.

Os entusiastas costumam ser os primeiros a adquiri-las, testá-las e promover sua disseminação e sofrem bastante com a dificuldade do consumidor médio de adquirir veículos mais modernos, em linha com os mercados desenvolvidos.

Agora chega a hora de mencionar o segundo modelo do título do artigo: o Chevrolet Onix.

tipos de carrocerias chevrolet onix

Chevrolet Onix

A piada corrente entre os petrolheads afirma que o Onix é o Gol da Chevrolet. Assim como seu sucesso deriva da sua receita parecer mais com o Gol original do que os modelos compactos oferecidos pela Volkswagen atualmente.

Educação Automotiva já abordou a discrepância tecnológica entre o Onix e up! neste meme abaixo. Ele contém a representação perfeita em si e nos comentários da postagem na página do Facebook. Clique aqui e veja com seus próprios olhos.

meme up vs onix educação automotiva

6 – MANUTENÇÃO TEM PRIORIDADE SOBRE DESEMPENHO E CONSUMO

O sedã médio queridinho do brasileiro nesta década prova que o motorista brasileiro busca o veículo de mecânica familiar, básica, de manutenção relativamente barata e conhecida de todos os mecânicos e que vende como pãozinho quente no mercado de usados: o Toyota Corolla.

Em um segmento altamente concorrido e com muitos concorrentes fortes e com tecnologia similar aos mercados maduros, o Toyota Corolla e seu arquirrival Honda Civic desbancam concorrentes mais modernos, potentes e eficientes como Volkswagen Jetta e Chevrolet Cruze devido ao apego do motorista brasileiro ao conhecido e ao consagrado.

A exceção à regra são os gearheads, os maiores – senão os únicos – defensores destes modelos com motores turbinados, centrais multimídia com centenas de funções, teto solar panorâmico, piloto automático adaptativo e assistentes eletrônicos que fazem balizas automaticamente.

volkswagen jetta x toyota corolla

O receio à adoção de novas tecnologias e valorização da manutenção barata orienta a maior parte dos clientes. Por isso os motores turbo ainda não emplacaram no Brasil.

Pelo mesmo motivo que o VW Gol BX demorou para receber o motor AP, mantendo o aircooled em seus primeiros anos. Da mesma forma que os motores mais modernos eram considerados “coisa de entusiasta” e restrita às versões GT e GTS, a história se repete ao se mencionar a possibilidade de comprar um carro com motor turbinado.

7 – O CONHECIMENTO TÉCNICO DO BRASILEIRO SOBRE CARROS É BAIXÍSSIMO

Em relação aos países nos quais a educação automotiva se encontra em estágio avançado, como a Alemanha, o motorista brasileiro ainda tem um longo caminho a percorrer.

As autoescolas não transmitem praticamente nenhum conhecimento útil para a vida prática do motorista. Apenas adestram os alunos para passar nas provas teórica e prática, cobrando preços exorbitantes por isso.

Na prática, o conhecimento automotivo de motoristas se limita às demandas da vida prática ao volante, como sinalização e legislação de trânsito e manutenção básica.

A educação automotiva no Brasil passa ao largo de informações importantes como a nota de segurança veicular que seu veículo atual ou futuro obteve em testes de impacto da LatinNCAP. Estes 4 artigos trazem o essencial sobre segurança veicular:

O brasileiro médio também desconhece a quantidade de poluentes que seu veículo emite. Indo além, a maioria também não sabe nem como as emissões são medidas!

Três dos nossos artigos mais populares explicam de forma simples e clara.

8 – O BRASILEIRO NÃO É APAIXONADO POR CARRO

Marqueteiros de empresas petrolíferas, produtos para carros e competições de automobilismo criaram o mito de que “brasileiro é apaixonado por carro”. A prática demonstra o contrário, especialmente em comparação com outros povos, tais como o inglês, o americano, o japonês e, acima de todos, o alemão.

Clique aqui e perceba o abismo que existe entre a paixão por carros de brasileiros e alemães.

Alguns entusiastas mais ingênuos, no momento em que sente o despertar de sua paixão por carros, acreditam piamente que todos se interessam tanto quanto ele. Na quase totalidade dos casos, recebe um balde de água fria. Primeiramente, dos parentes próximos; em seguida, da(o) namorada(o) ou esposa (marido) e do restante das pessoas com as quais se relaciona no dia-a-dia.

A dolorosa descoberta do enorme desinteresse pelo automóvel como produto se agrava ao constatar que alguns motoristas se interessam apenas pelo que ele representa – o status social que ele (falsamente) conquista a seu proprietário, ou simplesmente a atração pelo design. Há apenas uma paixão pela aparência do veículo.

Estes consumidores com interesse por carros apenas superficial ignoram os dados mais técnicos, como potência e torque máximos, tipo de construção de chassis, equipamentos de segurança, configuração de motor e câmbio, performance na aceleração de 0 a 100 km/h, dados de consumo e emissões, e a história da marca e modelo.

Infelizmente, o consumidor médio ignora os aspectos mais importantes e técnicos nos dias de hoje. Entusiastas em geral, especialmente aqueles que aprenderam a guiar até o final dos anos 70, se recordam com carinho de um tempo no qual as propagandas de veículos se focavam nos aspectos técnicos e não nos estéticos, como nos dias de hoje.

Os gearheads que aprenderam línguas estrangeiras ficam maravilhados ao ver a riqueza de informações dos sites alemães, americanos e britânicos ao descrever os mesmos modelos vendidos aqui.

Vale lembrar que o desenvolvimento das páginas ocorre nos departamentos de marketing de cada país e refletem as preferências de cada consumidor. Clique nos links e compare as páginas do VW Golf nos sites da Volkswagen do Brasil e Volkswagen AG (Alemanha).

Repare na riqueza de dados técnicos muito maior do site alemão em relação ao brasileiro, apesar do design de ambos os sites ser exatamente o mesmo.

A maioria dos brasileiros não é apaixonado por carro. É apaixonada por beleza e status. Quanto antes o entusiasta aceitar isso, mais fáceis se tornarão as conversas sobre carros fora da comunidade gearhead.

O CLIENTE SEMPRE TEM RAZÃO

Encerrarei este combo de dois artigos com uma patada nos gearheads, e o farei na primeira pessoa do plural, pois estou junto com todos na paixão por carros que se iniciou na infância.

Apesar de sabermos o que há de melhor em matéria de carros, darmos valor para praticamente todas as inovações e estarmos dispostos a gastar mais tempo e dinheiro para empregar em nossos carros, motocicletas e demais veículos, devemos ter em mente que os gearheads se tratam de um grupo muito pequeno no universo de clientes.

Para os fabricantes de automóveis, somos uma minoria barulhenta e insignificante.

Montadoras existem para gerar lucros, não para fazer os carros mais legais, refinados e queridos pelos entusiastas. Aquelas que inverteram esta ordem faliram ou foram absorvidas por outras empresas, maiores. Vide Bugatti, DeLorean, Lamborghini e Tucker.

Os executivos venderão o produto com a configuração mínima exigida pelos clientes pelo maior preço que eles aceitam pagar. No Brasil, esta filosofia funciona muito bem e gera altas margens de lucro para todas as marcas que a praticam. Vide Volkswagen, Honda, Toyota, Mercedes-Benz e BMW.

A única forma de melhorar o nível de qualidade dos automóveis vendidos no Brasil reside em melhorar o nível de conhecimento geral da totalidade dos motoristas como um todo. Este processo lento e trabalhoso aumentará o nível de exigência do consumidor médio, forçando os fabricantes a aprimorar tecnicamente os produtos de modo generalizado, para não perder mercado.

Esta visão não tem nada de utópica. O mundo está repleto de cases de sucesso nesta mudança de mentalidade. Os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha iniciaram este trabalho de educação automotiva no final dos anos 1970. Cerca de vinte anos depois de longas campanhas e mudanças profundas, os resultados começaram a florescer.

Hoje, temos um bom caminho para se inspirar e melhorar o prazer de dirigir em todos os aspectos. Se os motoristas brasileiros aprenderem Os 8 requisitos mais importantes para escolher um carro zero, as melhorias surgirão em poucos anos.

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